Lesões cervicais não cariosas e hipersensibilidade

27 março 2019

robrac29

Lesões cervicais não cariosas e hipersensibilidade dentária são as doenças bucais mais incidentes de nossa geração, que há várias décadas a Odontologia tenta explicar e controlar. Mas, nos últimos 50 anos, muito do que se achava não aconteceu e muito do que se vendia como protocolo não era efetivo. O grupo de pesquisadores de lesões cervicais não cariosas da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), fundado em 2008, se tornou o primeiro registrado nas plataformas legais focado no estudo da ascensão estrondosa do número de pacientes com doenças não cariosas, que é a perda da estrutura mineral precoce (esmalte, dentina e osso).  O resultado do importante trabalho deles foi descrito no estudo “Influência do desequilíbrio oclusal na origem de lesão cervical não cariosa e recessão gengival: análise por elementos finitos”, publicado na Robrac (Revista Odontológica do Brasil Central), da ABO Goiás. A publicação mostra aos profissionais que a Odontologia está preparada para prevenir e tratar essa doença de uma forma multiprofissional e multidisciplinar, atuando em conjunto com outras áreas da saúde.
“Na última década, observamos que mais pessoas adquiriram doenças não cariosas do que cariosas”, ressalta o professor Paulo Vinícius Soares, coordenador do Núcleo de Pesquisa, Ensino e Extensão em Lesões Cervicais Não Cariosas e Hipersensibilidade Dentinária e professor da Área de Dentística e Materiais Odontológicos da Faculdade de Odontologia da UFU e doutor em Clínica Odontológica Integrada (FOP-UNICAMP). Ele informa que o grupo vem tentando justificar, dentro de uma nova perspectiva, como controlar a doença bucal mais incidente da geração atual.
De acordo com o professor, o processo formador da lesão não cariosa pode envolver todas as faces dos dentes, mas acomete com mais frequência a região cervical. Já a hipersensibilidade dentinária é uma dor que o paciente sente e que não é vinculada à placa bacteriana ou falta de higiene, mas está diretamente ligada e é o primeiro sinal clínico de uma futura lesão cervical não cariosa. “A lesão é a cavitação ou perda de massa. Algumas vezes dói, outras não”, destaca Paulo Vinícius.
Essa cavidade também pode estar associada a uma retração da gengiva, ou recessão gengival. São eventos acontecendo ao mesmo tempo, que podem ou não estar envolvidos num processo doloroso. No trabalho publicado na Robrac, eles mostram que, dependendo da maneira como o dente recebe um carregamento, uma força durante o processo de mastigação ou durante hábitos para-funcionais, como o rangimento dos dentes (bruxismo), pode ocorrer o acúmulo de tensão mecânica que favorece a destruição da estrutura dental e a reabsorção do osso cervical.
Essa reabsorção gera o processo de perda do esmalte e de mudança do ponto de fulcro e do comportamento mecânico do dente na região, favorecendo o surgimento de lesões e hipersensibilidade dentinária. Quem ler o artigo da Robrac terá a real noção de como acontece o comportamento biomecânico destes dentes com lesão, como a lesão surge através do processo mecânico e aprender que este processo não é um fator isolado ou dominante. “Você precisa de uma associação de fatores, principalmente de processos químicos envolvidos”, explica o professor.
O artigo também traz uma abordagem sobre os prováveis grupos de risco. Determinados grupos na sociedade possuem a doença porque são mais impactados por fatores biomecânicos, como pacientes que sofrem de ansiedade, que praticam o apertamento dental, com hábitos para-funcionais ou que praticam exercícios físicos na busca de hipertrofia muscular e acabam apertando muito os dentes. Tudo isso leva a uma sobrecarga mecânica. No artigo, também há explicação sobre a necessidade de um equilíbrio oclusal executado pelo profissional e de protetores bucais nos casos em que se consegue detectar os momentos de apertamento dental e evitar o encontro de esmalte contra esmalte, que é maléfico.
Paulo Vinícius lembra que o tratamento deve ter uma abordagem multiprofissional, associando terapias alternativas ou a psicologia, por isso também inclui o controle da ansiedade. “No artigo, fica claro que os fatores químicos são importantes, como os pacientes que sofrem de refluxo gastrofágico ou que têm uma dieta muito ácida”, destaca. Também há um grupo de risco que coloca a doença na faixa mais jovem, que são os pacientes pós-ortodônticos, que acabam tendo mais chance de desenvolve-la devido à perda óssea pelo processo biomecânico de absorção.
Após a detecção dos grupos de risco, mapeados no consultório, os profissionais devem executar os protocolos personalizados de tratamento. O artigo fala sobre o fator biomecânico, mas existem os fatores friccional e bioquímico ou biocorrosivo. Tudo isso, o profissional encontra no livro ‘Lesões Cervicais Não-Cariosas e Hipersensibilidade Dentária Cervical – Etiologia, Diagnóstico e Tratamento’, lançado na Alemanha, em 2017, pela Quintessense Editora, com posterior lançamento traduzido em português para o Brasil. “O mais importante é que tudo isso foi gerado a partir de pesquisas da UFU com recursos públicos destinados à pesquisa. É como se fosse uma contrapartida nossa para a sociedade”. O trabalho também contou com as participações de Alexandre Coelho Machado, Alfredo Julio Fernandes Neto, Clébio Domingues da Silveira Junior, Ana Laura Resende Vilela, Murilo de Sousa Menezes, Daniela Navarro Ribeiro Teixeira e Igor Oliveiros Cardoso.
O trabalho pode ser lido na íntegra no site da Revista Robrac: acesse aqui.
Fonte: Revista Odonto nº 39

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