
A maioria das pessoas que realizam trabalhos sociais fazem isso apenas de forma esporádica, geralmente em datas comemorativas, como Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia da Criança e, especialmente, no Natal. Encontrar alguém que fez disso um estilo de vida, algo que já esteja incorporado em sua rotina diária de afazeres semanais, ainda é bem mais raro. Mas este é o caso da cirurgiã dentista Karlla Martins Trindade, que fez do ato de ajudar o próximo um hobby e, por que não dizer, um verdadeiro sacerdócio. Karlla foi apresentada ao trabalho social ainda criança, por seus pais, que já se dedicavam a isso com muito afinco. “Meus pais faziam o sopão para pessoas carentes e eu ia junto com eles quando ainda era bem pequena”, lembra. O resultado é que ela foi crescendo e absorvendo estes valores, herdando essa paixão deles, que, segundo ela, acabou se tornando uma mania mesmo. “Hoje, acho tudo isso muito normal porque já está incorporado à minha rotina. Não imagino mais minha vida sem esse trabalho. Quando deixo de fazer, sinto que falta alguma coisa”, conta a cirurgiã dentista.
Agora, ela está transmitindo esse legado para sua filha, Luiza Trindade, de apenas cinco anos, que já a acompanha nestas missões, e por que não dizer, lições de vida. Karlla participa de vários grupos de trabalho social ao longo da semana e até nos finais de semana. Eles estão no Hospital Araújo Jorge, nas quintas-feiras à noite, no CRER, nas terças-feiras à noite e, como se não bastasse, nas noites de domingo ainda estão no Hospital de Doenças Tropicais (HDT). “Nestes hospitais, fazemos serenata para os pacientes, de leito em leito”, destaca.
Comunidades carentes
Nos finais de semana, os grupos ainda vão ajudar moradores vizinhos a lixões, além de visitarem asilos e orfanatos. “Para as comunidades carentes, levamos kits de higiene oral e cestas de alimentos. Boa parte destes kits são doados por meio de uma parceria com a ABO Goiás e a Colgate. Para os asilos, levamos todo tipo de doações que eles estejam precisando, como papel higiênico e fraudas descartáveis”, conta a cirurgiã dentista. Para ela, este trabalho já virou uma rotina, algo que acontece naturalmente na semana.
Após tantos anos de dedicação, Karlla foi marcada por muitas histórias tristes, que foram amenizadas por meio da solidariedade. Uma delas é a de um morador de rua sem o movimento das pernas e usuário de drogas, que vivia pelas ruas do Centro de Goiânia, deitado num colchão e coberto de fezes e urina. “Eu e um colega dávamos banho nele uma vez por semana, até que conseguimos colocá-lo em um abrigo, que acabou fechando depois, e ele voltou para a rua”, lembra.
A dentista e o amigo, novamente, conseguiram levar este homem para outro abrigo temporário, mas ainda temem que ele volte para as ruas. “Também já vimos muita coisa triste em hospitais, como pessoas que faleceram em nossa frente, mães que perderam filhos. É sempre doloroso”, conta. Mas há também histórias de alegria, como quando um dos grupos dos quais ela faz parte se reuniu para realizar o sonho de uma criança carente: ter uma festa de aniversário, com salgadinhos, docinhos e bolo.
A filha de Karlla só não a acompanha aos hospitais, onde não pode entrar. Além de ensinar a importância deste trabalho, essa é uma forma que ela encontrou para não ficar muito tempo longe da filha, já que tem uma rotina puxada e fica muito tempo fora de casa. “Ela já entende perfeitamente a importância deste nosso trabalho e até me pergunta quando vamos voltar ao asilo para ajudar os velhinhos ou a um orfanato para ajudar as crianças que não têm pais”, orgulha-se a mãe. A expectativa é que Luiza também incorpore estes valores, sinta essa necessidade tão forte de ajudar os mais necessitados e continue trilhando este caminho ao longo de sua vida.
A última viagem para a realização de um trabalho social feito pelo grupo aconteceu num povoado quilombola na comunidade Vão das Almas, no município de Cavalcante, nordeste do Estado, em comemoração ao Dia da Criança. Karlla lembra que eles levaram brinquedos, kits de higiene oral, guloseimas e lanches. “É uma comunidade muito isolada, cortada pelo rio das Almas, que só pode ser acessada em veículos 4×4. Quando o rio enche, os carros não passam”, conta.

Apesar de fazer tudo isso, Karlla ainda trabalha em três consultórios odontológicos diferentes, de segunda à sábado. Três vezes por semana, ela ainda dá aulas em um curso de Auxiliar de Saúde Bucal. Para cuidar do corpo, a cirurgiã lembra que praticava muay thai quase todos os dias da semana. Mas, hoje, por conta dos trabalhos sociais, a atividade física pode ser realizada apenas duas vezes por semana.
Karlla participa de vários grupos de assistência social, dos mais variados tamanhos, que vão de oito a 40 participantes cada, com ou sem convicções religiosas, e alguns deles contam com outros cirurgiões dentistas. Para ela, ajudar o próximo é uma obrigação de cada ser humano, pois, se todos fizessem isso, não haveria tantas pessoas carentes no mundo. “Tudo que faço tem uma energia muito forte. Quando você emana coisas boas, tudo isso tende a voltar para nós”, acredita.
A esperança de Karlla, que tem apenas 35 anos, é que haverá um dia em que não haja mais necessidade de voluntários fazerem este tipo de trabalho no mundo. Um dia em que os governantes ofereçam toda a assistência aos mais necessitados, que haja mais oportunidades e a desigualdade social diminua.


